Conto - Quarto vazio
- cosmepl
- 11 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 6 de fev.

Quem mandou você abrir essa janela? Agora eu posso ver a luz entrar, e eu não queria que as coisas mudassem por aqui.
Eu não te culpo por fazer o que você achou que era certo, mas esse tipo de coisa deveria ser avisado, não?
Não gosto de ser pego desprevenido, ainda mais num lugar que você não deveria ter acesso… Eu posso até explicar que abrir janelas pode ser bem desconfortável, não que a luz seja um problema, ela por si só não quer dizer nada, mas eu queria me preparar para fazer as coisas com calma…
Eu tenho meu trabalho, tenho minha rotina, estudo, faço minhas coisas, e estou mantendo cada coisa no seu lugar… Espera, isso é um feixe de luz? Eu não lembrava que essa parede aqui tinha essas cores…
Eu reparei em você sem querer, e se eu te contasse os motivos por isso, você nem acreditaria… apesar que sendo sincero… Enfim, se eu te perguntasse os motivos pelos quais alguém te olharia você diria que não tem motivos pra isso acontecer, mas eu não quero falar disso agora, mesmo sabendo que era aqui que tínhamos que chegar…
Eu aprendi algumas coisas ao longo dos anos, e essas lições não podem ser replicadas, porque nada que eu tenha mexido nessa sala, pode fazer com que gere alguma mudança em você diretamente.
A primeira coisa que eu tive que fazer é colocar cada coisa em seu lugar, foi trabalhoso organizar isso, eu não conseguia começar, eram muitas caixas, gavetas e armários, histórias, traumas e memórias, nossa como foi difícil tornar isso aqui habitável… as vezes eu reflito que eu me comprometi a fazer isso muito cedo, antecipar as coisas é muito complicado, cada coisa tem seu lugar, mas não era simétrico. Caixas maiores, papelada com tamanhos diferentes, as vezes cabia na estante outras vezes não. Já meti o bobo de colocar pessoas pra me ajudar nessa tarefa e todas as vezes até agora quem passou por aqui só bagunçou todas as coisas que eu havia organizado… ou apenas tentou ao seu modo organizar o que era meu?…
A segunda coisa que eu tive que fazer era reconhecer que algumas caixas eu não teria capacidade de arrumar sozinho, e que loucura pensar nisso, já que aqui não é um lugar tão acessível assim.
Enfim, agora a luz vem entrando, deve ser o sol que está nascendo, e eu percebo agora que existem alguns cantos aqui que não foram organizados, você não apareceu aqui pra fazer isso né? Não me responda, eu não vou querer que você faça isso aqui agora.
Eu preciso entender como foi que você entrou aqui… Porque eu nunca te falei desse lugar, eu não saio apresentando aqui pra quase ninguém, muito pelo contrário, muitos dizem que eu sou criterioso, mas não é isso… na verdade eu nem sabia o porque eu era assim, então criterioso era o nome que eu tinha pra classificar isso, e quando eu descobri que não era isso na verdade, foi bem doloroso.
Eu não vou falar muito sobre isso, porque te revelar minhas vulnerabilidades consolida um pouco o fato de te colocar como parte daqui, será que isso te deu acesso? … Como eu ia dizendo, quando eu descobri o que de fato era, eu estabeleci uma conexão importante comigo mesmo e me descolei da realidade e não no mal sentido, mas no sentido de perceber a distância que eu tenho da realidade em que eu fui inserido e das regras do jogo que são jogadas, eu prefiro conexões genuínas e pessoas inteligentes.. será que é por isso que você chegou aqui? …
A luz já está chegando no meu quadril, e agora eu vejo a minha vitrola, ela é diferente porque eu programo ela, eu posso ouvir a música que eu quiser sem precisar do disco, eu só preciso relembrar a melodia e dar o “play”, ela tem um acervo gigantesco, mas com sua construção toda ela não ocupa espaço físico, você quer ouvir alg…? Não, desculpe, eu estou me antecipando às coisas… mas não é ansiedade, é porque é diferente realmente poder falar com alguém aqui dentro.
Sabe que existe um padrão? Claro que é um padrão que não é tão padrão assim, porque quando falamos de pessoas, não tem como ser igual, porém é muito parecido, e eu acho que já posso falar inclusive o motivo pelo qual você chegou aqui… espera, será que eu realmente preciso revelar isso? Não fique triste, não tem relação com você, tem haver comigo mesmo, porque eu começo a perceber coisas em você, que talvez você não reconheça, e aí se eu revelo os motivos pelos quais você está aqui, é nítido pra mim que você vai ir embora, você já foi algumas vezes quando eu perguntei se você queria conversar, quando eu disse que você poderia confiar em mim, quando eu te mostrei que eu sou do bem, sim eu não falei que eu era do bem, eu te mostrei e provei que era, isso é diferente, não é? E por mais que eu te acalme e você saiba que há um lugar seguro para você estar, “porque a vida seria boa o suficiente pra te colocar aqui?” Ai começa o papo de que eu não mereço, que eu sou muito e que eu sou mais um tanto… quando não é essa conversa, é o silêncio, é o “evitar”, porque você não se permite te olhar como eu vejo e quando eu vejo, é diferente. Eu não posso te obrigar a aceitar as coisas como eu vejo, ou como elas são.. é um exercício que cada um precisa vencer sozinho…
O sol está clareando mais aqui, e já chega no meu ombro agora, eu não vou olhar sua silhueta, porque isso não é importante, e você tem consciência disso né? Não tem? Eu acho que já demonstrei o suficiente que não era, certo? Isso é um estado, não é uma definição. E recai um problema sobre mim que é a vontade de transformar, se você olhar em volta vai perceber que a maior parte das coisas estão organizadas, algumas poucas se organizam sozinhas já, e eu fico feliz porque o tempo vai passando e cada vez mais tem mais coisas se organizando sozinhas, legal né? Não se preocupe, pelo que me disseram isso é mais comum do que parece, são coisas importante e outras nem tanto assim. Se a luz subir mais um pouco, duas coisas muito importantes vão acontecer: a primeira delas vai ser possível acessar as caixas que estão ali na minha frente, nelas tem coisas muito legais, é sério! E tem uma caixa também que eu não consegui abrir ainda, mas ela pode ser acessada a quatro mãos, abrir ela me parece um pouco complicado, mas por você estar aqui pode ser possível, ao que eu me lembro dela, ela é dourada, não é muito pesada… eu estou falando muito né? Eu acho que comecei a ficar empolgado com sua presença, inclusive eu não queria ter que continuar essa conversa, mas eu preciso ser franco, a outra coisa que acontece quando a luz preenche o quarto é que eu te enxergo completamente… você ainda está aí?… a segunda coisa é que o preço costuma ser um pouco caro, sei que te assusta mas é a verdade, de alguma forma as suas vulnerabilidades também são colocadas na mesa, e tá tudo bem, é difícil mesmo permanecer, estar é ruim no começo, mas fica bom, eu queria prometer que é bom, mas não depende de mim, dependeria da gente… sim, de nós…
A luz toca a pele do meu rosto agora, e você sabe o que isso quer dizer né? Que se eu virar e você estiver aqui ainda … mas calma, eu não vou te dar motivos ou insistir pra você ficar, eu jamais faria isso, eu sei que é diferente, mas não é que eu precise insistir, você vai ficar se sentir à vontade! É estranho, mas é como as coisas deveriam ser, eu sei… agora eu vou me virar, e não é protocolar, é porque agora eu queria mesmo que você me enxergasse de verdade, e vice e versa… antes de eu me virar eu preciso te revelar que é estranho ter alguém aqui, quando se fica muito tempo só, a gente faz essas coisas sozinhas fazerem sentido, e não fico infeliz por isso, acho que não, mas refletindo sobre alguns motivos e percepções posso enfatizar que a nossa própria existência já é o nosso fim… deixa eu esclarecer que a forma como eu te enxergo é diferente… queria que um dia você aceitasse se enxergar assim… eu vou contar até três pra virar, não é que eu esteja fazendo jogos, é só pra te preparar. Um … dois … três…

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